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Zona X

Adília César

25/08/2020 01:42

Na zona x comem-se vidros. Os seres
que ali permanecem possuem no rosto
a vulgar aparência da denúncia.
Algures no campo extra-físico uma cicatriz hereditária
como uma testemunha de patologias
na evidência de um corpo anulado.

A imortalidade do destino embrulha a vida falsa
em jornais antigos de notícias verdadeiras.
Nos intervalos entre as palavras, o vazio.
A mãe que esquece a pequena filha
fechada em casa durante três semanas.
A vizinha que não acode à criança que chora
porque sofre de aneurisma emocional.
A velha na pastelaria
lê a notícia das negligências alheias
come um queque e passa ao suplemento das telenovelas.

Na zona X delimitada pela indiferença
morre-se, mata-se e deixa-se morrer.
Nunca somos verdadeiramente vivos.
Estamos apenas a caminhar para o próximo falecimento.
Todos assoberbados pelas suas pequenas tragédias diárias.