Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Vou aguardar os pirilampos

Dalila Moura

19/12/2018 01:29

Para escrever um poema, não é preciso muito.
Para escrever um bom poema,
é preciso rasgar a alma e as entranhas,
antever a praia enquanto as cerejas amadurecem
e o rubor das mesmas se mistura com o anil do mar
respirando a cor dum abraço adolescente
a mergulhar no íntimo da terra e no suor da tempestade.
Ser nascente que verte o sangue visceral
e continua a correr escandalizando as veias
e indignando a rebentação da própria onda.
Desafiar o gemido e o bramir das nuvens,
estalar o corpo e ranger os ossos
perante a injustiça e o amarelecer da fome,
sujar os olhos de infinito e navegar na crosta da terra,
molhar os pés no ácido que ateia a ferida
esperando a corrosão das teias que mastigam as horas.
É preciso – talvez - entrar na floresta,
desafiar o sol e o brilho do arvoredo,
acender os cabelos com gorjeios de pássaros e respeitar as
estrelas que tombam do firmamento com asas de neblina.
Lavrar o peito! Como quem usa a charrua na terra seca
junto da estrada em ruínas.
Acender um vulcão nas folhas das árvores
e esperar que os frutos de ternura
saciados de musgo, abanem a noite
e regressem ao caminho do Mar!
É preciso muito para escrever um bom poema! Por isso, vou
aguardar os pirilampos e aprender com eles o caminho das
palavras… quando tremem, toda a noite se ilumina!