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Um rio nas mãos

Dalila Moura

10/10/2020 01:58

Sentei-me no alpendre onde as buganvílias cruzavam a
tarde e o sol persistia em transfigurar a tela onde o dia se
desenhava.
Uma secreta andorinha procurava o resto de barro que fora
ninho e repousava o ventre na fronteira das telhas com os
ramos.
O vento vigiava o azul que espreitava entre o rosa das
buganvílias na cumplicidade do mistério do voo das aves
rumo às marcas deixadas na sombra do inverno e da
fogueira dos astros.
A terra apetecia! O tempo convertia-se em mãos a acariciar
as espigas, pequenos rastos de luz que escapavam do sol. O
toque rasante das andorinhas a crescer perto dos olhos
dava mais luz à tarde e vigiava o alvoroço do peito. Sorriam
as buganvílias! A sede do azul incendiava as flores, de
claridade!
Fechei o livro e todas as palavras arderam na dança da vida,
como se dentro do peito extravasasse a paz em forma de
rio. E todas as estrelas ferveram na corrente!