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um dia a mais um dia a menos

Isabel Mendes Ferreira

24/05/2015 02:15

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um dia a mais um dia a menos na terrivel perfeição do ir sem chegar a ser ou apenas pensar no nunca havido como tábua de reservada aflição onde se escreve o epitáfio do corpo pesado da alma vazia do vento cru como uma boca a abocanhar lapas na rocha. vens? doi me as costas de tanto espreitar o fundo. não não vou. fico aqui neste farol. está bem.espero. esperas o quê? nada. como sempre. como desde que te conheço em ilha ou anel. fico aqui. parada. sempre fui parada. até quando corria para os braços de minha mãe. e era uma porta pintada a ouro na rua florentina que descia para o rio cercado de peixes sim cercado de peixes que saltavam para a renda da saia dela que a memória infantil fazia de palácio. pois que em florença tudo é rendado a paixão e a remos de sépia. mais um dia neste banco de jardim onde não espero coisa nenhuma a não ser a rendição. o rosto é um sujeito irreal quase decisivamente perturbador. sem equivalência de queda ou ascenção. e tu porque não te vais embora ? porque insistes no instinto de que vou mudar se sabemos os dois que toda a mudança foi obscura e é ainda uma criança balbuciante em língua metódica? pois. em fim de misericórdia que um pobre anjo de bruços cuspiu na minha face devo dizer-te que acabou esta tarde irradiante. podes voltar para casa. ser outra vez lama e aranha macio e furtivo. alvo e pluma.
eu não volto. aliás nunca voltei. estive ausente em concha e em asa mas pouco em corpo. sei sei que as horas foram de petra e de akaba e do índico mas então porque me pretendes repetível e ao perto se sempre estive do outro lado das pedras. as mais negras as mais áridas as mais esforçadas pedras do olhar sem betume que cobrisse a fenda do mar que um dia se abriu e logo se fez morto. vai. leva-me as flores. a neblina a música o pretexto as unhas pintadas de negro e os pés marcados de argila sobre tudo o que não fomos nem inventámos e muito menos fizemos de conta que era um conto de silêncio. deixa a tua mão apenas sobre os meus olhos como erosão. dirás que estava escuro. escuro demais para me encontrar.