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Uivos do Corpo, da Intimidade e da Palavra III

Adília César

16/09/2019 01:54

O dia acordou e não sabia onde estava.
Ordenou que cada um acordasse
uns com o vento
outros com a luz
alguns com o despertador.
O cão vadio que ladrava ecos da fome
não acordou ninguém.

O rendilhado da cidade permitiu a passagem
do vento-presságio da tragédia
e da luz-alívio da sua consumação
quando o despertador
se desfez em milésimos fúteis de segundo.

O poeta que nunca dormia
percorreu o mundano e o sagrado da cidade
munido de um cutelo apertado na única mão que conhecia
a mão que escrevia. Entrou em todas as casas
e procurou as camas onde moravam os anjos.
Escreveu em golpes certeiros o seu último poema.
Brilhante vermelho surreal nas mil asas mutiladas.
Os poemas moribundos gritaram em aflição - sangue!
Ninguém ouviu. O sangue não pode ser uma palavra
(decidiu o poeta). É apenas símbolo da liquidez do crime
armadilha urbana presa na mão cortada
que o cão vadio levou para matar a fome.
Uma marca lúcida de vida
na decoração da bestialidade do poeta.