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Tudo o que eu sei

Leonora Rosado

05/03/2018 02:45

Tudo o que eu sei, começa pelo fim. Um pântano
exclamativo no fundo do peito, um balde de zinco onde
respiram ainda, alguns versos. Uma malignidade
desesperada que silenciosa ressoa. A palavra é uma
lâmina equilibrada no musgo dos dias, e no entanto, fica a
minha inquietude se dela me distancio. Em todas as
tragédias persiste em pano de fundo, uma certa ternura
desolada e desoladora, um cintilar através da penumbra.
Tenho o meu rosto encostado às consoantes, espantado
com a dócil bravura das vogais. Cada sílaba é um espelho,
um tornozelo magoado, mas faminto, têm sede estas
linhas, bebem dos meus dedos o pó intemporal da
angústia. A memória é um fogo fortuito, um lume que
arde para dentro de meticulosos veios de alguma sombra.
Um lago intempestivo, uma esquina de punhal que
retorce a ferida, devagar. Tudo o que sei, acaba onde
começa e alastra numa dor profunda, sem regresso. Na
matéria do espelho existe um voo imerso, uma supressão
de alguma parte da alma, um espinho nidificado. É
possível que nos olhe de volta com um certo rancor, o
nosso próprio reflexo. Estamos ávidos de sombra,
povoados de espectros, abandonados na corrente
sanguínea da tarde que nos alimenta e nos concede uma
espécie de alicerces invisíveis. Uma transparência da
eloquência, onde nos aconchegamos para sentir a faca do
vento.