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Todas as onze horas de todas as noites

Isabel Mendes Ferreira

28/10/2021 22:28


Todas as onze horas de todas as noites o carro cheira a fruta e a abraços com 
palavras sossegadas . As ruas cospem dentes partidos unhas negras e corpos 
encolhidos de medo tristeza desencanto e cobertores infectos. Todas as noites 
ela chega discreta e anónima sem querer ser mais do que o gesto urgente de
ser um pequeno milagre sem rezas nem agradecimentos. Faz- se dia num só 
abraço e numa palavra em que não entra nem governo nem pátria. Apenas o 
pão da solidariedade. Assim todas as onze horas de todas as noites desde que 
o tempo é jura e indiferença . Mortífera. E nenhum orçamento cumpre o ofício 
de dar sem querer de volta o voto sempre orgulhoso e arrogante.