Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

TERRA MADASTRA

Paulo Barreto

02/02/2014 18:36

Sapato de pobre
com prego por dentro
furando no pé.
Sapato de rico
sem prego sem nada,
nem mesmo chulé.

Morreu Mariquinhas
a neta mais nova
de Zé Sapateiro.
De que ninguém sabe
mas diz a vizinha
que a todos consola
que foi uma esmola
mandada por Deus.

Doença do mundo
foi quem liquidou
a pobre bichinha.
Adeus, Mariquinhas,
talvez na outra vida
você tenha paz.

E o povo rezando
na beira da cama,
local dos pecados
da tal mulher dama.
Rezando, rezando,
rezando pra quê?
O Cristo coitado
foi crucificado
de braços abertos
na cruz de madeira
que pode fazer?

Menino na rua
chorando com fome.
Mamãe me dê carne,
mamãe me dê pão.
Barriga comprida
cheia de lombrigas,
a mãe desvalida
já puta da vida,
o filho mais velho
morreu de fraqueza,
não tinha comida
nem teve caixão
não tinha pinico
que é coisa de rico
cagava no chão
atrás da cozinha
e a pobre galinha
da velha vizinha
fazia a limpeza.
TERRA MADASTRA
Paulo Barreto

Meu Deus, que tristeza,
que peste é a pobreza!


Seu Pedro Vermelho
sofreu congestão,
tá todo empenado
deitado no chão,
no chão de poeira,
no inverno goteira.

Seu Pedro Vermelho
passou sua vida
atrás de um balcão.
Vendeu cacetinho,
vendeu bolachão.
Seu Pedro Vermelho
cadê seu irmão?
Cadê o Instituto?
Tá tudo atrasado.
Seu Pedro Vermelho,
você tá arrombado,
tá de boca torta,
não pode falar,
no bolso da calça
não tem um tostão,
dos pés à cabeça
só dá congestão.

O povo rezando.
Rezando pra quê?
Quem não tem dinheiro
não pode viver.


Na Rua do Meio
o Posto fechou.
Remédio acabou
só tem algodão,
o Posto só abre
tempo de eleição.

O povo chorando
sem paz, nem justiça,
nem Deus tá olhando
pobreza é carniça.
Alguém tá dizendo
que vai melhorar.
Feijão tá subindo,
mas vai melhorar.
A carne subindo,
mas vai melhorar.
A tal da melhora
só leio em papéis,
a fome anda solta,
tem honra de virgem
por cinco mil réis.

E o povo rezando,
rezando pra quê?
Se Cristo grandeza,
amor e perdão,
se Cristo pureza
olhar cá pra baixo,
coitado do macho.
Vai ver safadeza.

(Julho, 1980)