Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Sou apenas a minha face tocada pelo nada

Leonora Rosado

31/07/2018 02:26

Não sou pessoa. Volátil sentimento do que cuidas que eu seja.
Não sou ninguém. Apenas a mera sombra que julgas cingir pela cintura.
Se do ocaso ocasionalmente me buscas, sou duas.
Persona. Nula. De personalidade que cuidas amar, ao ar que respiro não alcanço a altura.
Sou silva. Sou cacto. Sou rocha esvaída em óleo de barco a reboque.
Não sou pessoa. Mero pensamento que enlaçaste um dia.
Fugaz em demasia. Estreito em corpórea ausência. Não sou tua. Ou algo. Quimera arrasada.
Arremessada aos oceânicos braços que se estendem em vão.
Não têm prontidão para acolher esta persona (des)ilusão.
O que cuidaste ver em mim era um traço de cio. Era um rasgo de medo.
Era aquele rochedo. Inexistente. Era o oculto segredo.
Do que em mim se confinava a uma perpétua abstinência do ser.
O que cuidaste ver em mim. Não era amor. Era apenas um sentimento vago do que acompanhava a não persona. Nunca amaste este funâmbulismo perene.
Secretamente tua. Eternamente nua de alma.
Sorveste tragos de absinto. Fumaste ópio do meu cachimbo para que enfim eu fosse.
Esse sentimento que cuidaste ter. Extinto. Pois apenas fingi que existi.
Banhada em sangue vítreo, obscenamente não presente.
Se a lua alcanças com o olhar nada perscrutarás.
Se nela crês ver-me espelhada.
Pois enfim. O que sou?
Não sou nada. Nada, nada, nada!