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se voltasse

Isabel Mendes Ferreira

09/04/2018 01:31

____________se voltasse talvez fosse assim. simples. simplesmente.
se as flores pudessem ser asas protectoras deste mal de vida deste bem de amar deste voo a cair desta terra vertiginosamente árida eu e tu seríamos a curva a fonte o anjo sustentado o suspiro a árvore gémea mas ao invés na arena abatem-se as raizes os rebentos e prende-se a água à cintura do fel. somos a dependência de uma fugacidade estilhaçante e o que resta são as flores. as flores do mal. as flores crescentes no contrato obscuro a unir o ódio e a paixão. mal de ser. mal de dar. mal de ver tanto interior entre o grácil e o distante. mas restam as flores.
reinventadas na respiração de uma luz que nada nem ninguém faz ambíguas. toda a lírica que deposito nas mãos da terra. ou no espaço. ou no mais absoluto silêncio .se voltasse seria na  imaculável dissonância do abandono e do estrídulo profundo em que enterro nuvens e árvores como se de óleo fossem. oh seres de algas salgadas e de olhos novos e nus que me são espaço sem espaço e chão sem terra e mar sem regresso. oh plácida solidão do sono liquidiscente onde não me pronuncio nem chego ao pressentimento. oh imaculável dádiva de abismos sustentáveis que é linguagem rangente do suporte inumano de todas as dores disfarçadas. dai-me agora a imobilidade vigilante da montanha e a denúncia errática dos mortos em vão. oh imaculante vigília da exasperação vem ser-me água. apenas. apenas o paladar da mais pura circunstância e devolve-me inteira à doce palidez do perdão. se eu voltar.