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Sal-gema e salmoura

Dalila Moura

10/10/2020 01:36

Todas as bocas te apetecem,
enquanto os rios descem das montanhas
e as cegonhas se abeiram dos eucaliptos.
Têm brancas plumas –
a relembrar a branca pele do teu desejo
envolta num manto sardento,
quais bagos de milho em encubação-.
Começa a noite a passear
entre as sementes e as flores silvestres,
junto à fogueira onde explode
o cheiro do alecrim incendiado
e a cantilena das cigarras tranca o medo e a solidão.
Sente-se o grito das roupas entre os sonhos rondando a voz
e o segredo.
Os olhos cor de espanto a decifrarem a réstia de luar
que soçobrou da lua cheia – e do feitiço dos astros –
As sombras indecisas
confundem-se no eco das palavras treinadas
a preceito por entre os dedos e a chama.
Todas as bocas te apetecem porque tens sede!
Desce sobre os lábios o orvalho e o carmim do desejo
enquanto a lua medita entre as estrelas e as constelações.
Há um pano de cetim
a envolver os astros e os corpos e a noite e as palavras…
As espigas soltam-se com o esvoaçar das cegonhas.
Os pássaros revolvem as madrugadas.
As pedras adelgaçam-se. O coração inquieta-se.
Percebeu com precisão
que nem sempre as palavras fazem sentido!
Quando os rios descem das montanhas,
qualquer boca sedenta neles pode beber…
A diferença está nas margens
e na corrente que conduz ao mar!
Há sal-gema misturado na salmoura
– nem todas as bocas sentem a diferença –
Só a boca onde o mar salva os sonhos do naufrágio!