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Retorno ao silêncio das nuvens

Maria João Cantinho

11/10/2014 23:46

Retorno ao silêncio das nuvens
atravessado pelas copas nuas das árvores
trepidante o comboio avança
e, olhando o céu, plúmbeo,
sinto-te entranhado no coração, no pensamento
e sei que jamais me abandonará a tua sombra.

Somos fugitivos de tudo
e de coisa nenhuma, tudo se resume
aos ossos, ao tempo, ao olhar de través
somos nómadas
a olhar o céu à procura de sinais
na constelação da noite
e das runas
entrevendo deuses, caminhando
no vento e na luz da tarde,
e procuramos, como mendigos
procuramos, com o olhar em assombro
perdemo-nos por essa maravilha que nos venderam:
a luz, a promessa, a liberdade
e tudo o que descobrimos são as nossas mãos nuas
em apelo de solidão e ajoelhamo-nos
ali se mostra o selo, a escrita grafada
o segredo inscreve-se na carne em ausência.

Diante de mim estás tu, sem espelhos
e guardas o meu olhar, irreversível, humano
definitiva e esplendorosamente
humano, sem redenção.