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Respirar

Maria João Cantinho

02/11/2014 01:47

Ergo-me na claridade plana do mar, como um
herói antigo, erguendo-se do cansaço, do
fogo da terra, nos nomes que se acendem e
respiro, ansiando esta doçura animal, onde só
a solidão existe, estilhaço da luz, agreste,
perdida no odor do pinhal.

Respirar apenas, cantar a voz, medir
os nomes contra a imensidão, não
pensar, apenas respirar as imagens,
a pele no coração do animal,

concentrar toda a esperança contra a mudez das
coisas, recapitular a seiva antiga das árvores,
respirar a água, a terra, o fogo, respirar o sexo, o
excesso, a litania do corpo, suspender as palavras,
aprender a fala, o vero som, o movimento das
coisas, por dentro da sombra.

Respirar as pernas nuas,
a pele contra o vento, o
corpo inteiro, a areia,
respirar a dança das
folhas,
na invisível linha do vento

Ser na luz, na água, ouvindo o círculo
perpétuo, poisar os gestos onde a destruição
da linguagem e respirar o nascimento
da linguagem secreta, este canto do mundo.

“Sílabas de Água”