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Regaço

Maria Helena Ventura

25/03/2022 01:16

Cobre-me devagar
com o véu do teu corpo.
Tantas estrelas cegam
quando aspiro a ser mais
do que uma pedra.
E que serei senão a pedra
sem idade
na penúria do caminho?
Consente-me a segurança
de um abrigo
no rumor suave
da intemporalidade...
afaga-me sem pressa
a destemperança...
segreda-me histórias
na macieza do sonho
como se fosse a eterna criança
sem convulsões de disputar
futuros.
O que é o futuro
senão a dança virgem
dos teus braços
num universo de máscaras
estranhas?
Deixa-me afagar a lama
dos símbolos purificados
até à transparência
na intenção de começar de novo
sem vestes muito pesadas.
Só coberta com o véu
do teu corpo
conseguirei evitar olhar
a dança das estrelas.
Precisarei de uma
talvez de duas...
de resto o que importa
hei-de encontrar
na curvatura da Terra:
o teu regaço.

                          (In Quando o silêncio falar))