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Quem?

Helena Ventura Pereira

16/04/2020 14:58

Olhava para ele, na sua altivez de construção maciça, jazendo ali carente dos meus afectos. Há quanto tempo não o afagava. Quatrocentas e cinquenta páginas moldadas com as mãos, a cabeça a latejar ideias, os olhos fixos no caminho que ele esboçara sem medo.
Não era o último, nem o primeiro, era um dos amores a quem entregara sangue, suor, algumas lágrimas, em ciclos de vigília pela noite, prolongados dentro do seu próprio corpo...Um livro.
Quem é essa identidade, quando e como se esboça o seu perfil, qual a altura ideal para nascer? Às vezes de restos de uma paixão intensa, nossa ou alheia, de encantos e desencantos com a paisagem multicolor da vida. Pode emergir do som de campainhas no peito, quando um olhar desamarra os sentimentos fechados e uma revoada de folhas cede ao ímpeto do vento. Pode brotar como flor da dor intensa ou do prazer fugaz, da prisão dos dias, ou do grito de libertação. Pode escorregar das lágrimas da chuva, das incidências do sol, do manto denso da noite, quando a claridade da lua vai pintalgando a escuridão dos caminhos...
Um livro em embrião dorme na alegria da partilha de momentos bons e maus, uma partilha subjacente ao paradigma, ainda não decifrado, que justifica a sua edificação. Saído do nosso corpo respira, existe. Tem cabeça, vontade própria, sentimentos. E cresce, reclamando o direito à sua autonomia, a um caminho diferente daquele que percorrem os que lhe dão vida. Tão diferente que viverá para além deles quantos mais forem os olhos de empatia que pousarem no seu regaço.
Um livro espera, latente, nas emoções sentidas ao rubro, ou nas que aguardam, jazentes nas camadas do Tempo, a sua vez de falar. Perscruta o fluir da vida, sedento de marcar o rumo que se abre num olhar, ou até num sorriso esquivo. Desce à morada da dor, sobe ao cume do prazer, onde habita o amor nunca regateado. Suga as energias do autor, sem querer saber se ele é famoso ou anónimo. E nunca mais pede nada, só retribui em perplexidades risonhas, mesmo que feito a chorar. Depois de abrir páginas à vida e de ampliar os mares nos olhos cansados, desbrava as selvas do impedimento, oferecendo bússolas aos que se julgam perdidos. E congrega multidões depois de estranhas diásporas. Porque é refúgio de outro tipo de amor que cada um vai construindo ao seu ritmo, na compulsão de ser e existir no desejo do seu rumo sustentável.
Um livro é o ser mais vivo em que tocamos, dolente numa inércia enganadora. Talvez o único bem não perecível que acrescenta vida e juros ao capital investido.