Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Que horas são?

Dalila Moura

08/05/2020 23:31

Não sei. Não tenho relógios. O tempo é irrepetível. Em cada partícula de momento o instante muda. Os olhos sabem ser tempo. Ser estação dentro de outra estação. Semear papoilas na neve e girassóis no orvalho. Isso é que importa. O mar a arder no sal da lágrima e no abraço do sol. O riso das folhas. E a seiva a correr entre o voo dos pássaros. O prazer a deslizar na pele. O cabelo apanhado a correr na padraria. Um cavalo com asas no trote dos dias.


E depois? Preciso do relógio para quê? Não há distância entre a fissura da boca e um beijo molhado de mar. A distância está nas gotas que evaporam num abraço. O melhor das horas é o silêncio a cantar. Sem ponteiros. Sem números. Sem portas nem chaves onde caber. Arder entre os astros e entrar no rio. Depois, deixar o corpo a secar na ponte e a alma a flutuar. Nenhum relógio sabe o tempo onde os peixes vão beber.

A sede não tem horas nem ponteiros. Nenhum relógio marca o tempo de escrever a vida.
Afinal, que horas são?