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Quando o silêncio

Maria Helena Ventura

17/08/2021 01:11

Preciso de dizer-te
que o sol custa a nascer.
O Tempo não tem asas
nem vias transitáveis
e só os lapsos frágeis
das rugas pedregosas
aconchegam as horas
ainda por viver.
Preciso que me saibas
como te sei agora
acordada por dentro
por fora amortalhada
no meu espaço.

Pronunciei renúncia
para te manter inteiro
na madrugada roxa
e com vidros feri
a flor não consumada
ribeiro nado-morto
na luz arrependida.
Confesso-te num sopro
o que não será dito
senão com mãos e boca
e corpo resgatado
ao fio da vã loucura.
Preciso desta lua
fechada no silêncio
de uns ponteiros febris
relógio avariado
no impaciente beijo
aquele que sabemos...
Porque é noite cerrada
de enigmas no meu peito
e o sol custa a nascer
todos os dias.

(In Quando o silêncio falar)