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quando já pouco importa

Isabel Mendes Ferreira

27/03/2020 17:07

quando já pouco importa qualquer regresso:______________existia uma voz no indesmentivel fulgor que ao canto do coração era morada. uma voz a nascer todos os dias como se um parto de panos novos e macios acontecesse a moldar tanto a pedra como a linguagem. uma proximidade entre o sangue e os olhos que de tanto dividir o tempo se fez prólogo e epitáfio. duas mãos oleadas de sílabas genuínas a cruzarem o silêncio botânico e dele se fizeram cílios e fontes e tantas vezes raiz. até que veio o mais cândido calvário da casa vazia. o temporal a ser mais forte que a terra e esta a ser devorada pela ruína. assim se matam as sementes. assim se enterra a chave e a memória ____________a música de uma janela a fechar. a fechar-se sobre o lugar evaporado. e a voz já nem é rumor. morreu a grande mãe. a que te desenhou o meu coração.
e
debaixo deste céu quando chegaste ao mar o mar era um destino de olhos vermelhos uma razia de bocas solitárias onde os gritos eram curtos e graves ossos roidos cuspo e espelhos escamas e pulsos amarrados ao ventre do celofane como costuras meditantes.
a casa do vento falava a língua dos mortos e os gestos eram presos como as alfarrobeiras amarradas à erva no des.sentido do sol vegetalmente frio.
quando o mar te afogou eras um pequeno intermediário da fala sem falas no livro platónico da culpa sem culpa e do bem sem mal e deste sem sulcos alcançáveis. quando a terra te levou o limbo e a desordem o mistério e as rosas o espinho e a espada o sal e a vil nódoa a mancha e o traçado do jogo fétido do papel sacrificado eras apenas um joelho em terra. a escrita e o sacrifício. o guerreiro sem país e a delicadeza da mais completa solidão.
quando chegaste à casa do mar recebeu- te David em declive. modestamente curvado. e ao lado uma mulher nua de rosas vermelhas. o sangue de uma mãe a ser-te passagem. coberta de neve. em narrativa humilde. porque é de gestos de leite que se fermenta a viagem ao coração. é tensa e breve e nomeável a distância que desarma e se discursa por dentro. impaciente o mar espera ser sete mares. no tempo poderosamente irreal . neste tempo impiedoso de ardências e de mortes cintilantes a voz latente é júbilo é jogo é logro é judiciosa. é o implícito adeus de Rafael.__________ e a virtude escorrente cerra os olhos ao ruído.