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Procedimentos para não escrever um poema que seja bonito

Adília César

30/07/2018 01:36

Alguma vez te pediram um poema bonito? Não há nada pior
do que um poema bonito, as palavras amenas e refrescantes
o preto no branco com muitos suspiros e açucares.
Amabilidades do discurso na teatralidade falsa. Declamação silenciosa
ameaças à respiração breve das palavras encantadoras.

Talvez te peçam um poema bonito. Referência da suavidade oculta
num verso, a espairecer as nuvens e o talento sentimental
climatologia morna da linguística aceitável
na partitura alinhada da tua imaginação incerta.

A curva inflexível da cabeça aos pés, a impedir o voo delicado
das palavras e a conjugar um enjoo subterrâneo de ti.
Todos os tempos verbais acidulados
a rendilhar a osteogénese imperfeita das frases.

Se te pedirem um poema bonito, faz de conta
que a semântica da primavera perdeu a validade
e os pássaros do tempo decidiram voar em contramão
para sincronizar o boicote às palavras róseas e aromáticas
vocação bastarda da poesia conceptual.

Que não te peçam um poema bonito.
Vais simplesmente dizer que a vocação poética cegou
nas sombras da memória inquieta
e no tempo apagado dos teus olhos já não semeias arabescos
e no espaço acidentado do teu corpo já não coses as feridas
que já morreste tantas vezes em silêncios herméticos
todas as vezes adjectivas e dolorosas em que tentaste
escrever um poema que fosse bonito.