Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Possibilidades poéticas de um ponto ao acaso

Adília César

30/07/2018 01:46

Visualizo um ponto ao acaso numa qualquer superfície.
Todo o universo consolidado num ponto
de uma qualquer matéria inerte ou sanguínea.
O ponto zero. Parece estático e quieto, morto.

Mas um ponto é, na sua essência, uma possibilidade de movimento.
De deslocação na superfície finita e bidimensional.
Um ponto, uma mancha no espaço em branco.
A construção de um objecto derivado da intenção interior e criadora.
O universo desse ponto é o limite da imaginação
da vontade, uma imagem abstracta e desconhecida
que não impõe condições para existir.
É apenas a procura do sentido da vida num plano inclinado.
Uma forma de conter a errância do pensamento
na margem, as mãos e o corpo que as segura.

Uma picada, um orifício a liquidificar o sangue na pele
a causar certezas de dor e de sofrimento.
O próprio orifício a exercer sobre si a maior violência possível
de pulsão na tridimensionalidade do corpo.
A latejar, vivo, a acumular a pressão e a maldade
a causar estranheza, a traçar linhas de fuga na escuridão.
A evitar a luz incandescente que nos cega
a desvanecer a luz intensa para que possamos olhar
a sua própria luz e a nossa própria luz.
A ferir uma substância que está prestes a cair no vazio.
A desenhar uma geografia do desastre emocional.

O ponto a abrir-se e a criar uma distância entre nós e os outros
para usufruirmos das potencialidades da sua coragem.
Não há nada mais corajoso do que a simplicidade de um ponto.
As infinitas possibilidades da sua transfiguração.
Um ponto de tinta breve na tela a inventar o brilho dos astros.
Um ponto de sangue urgente na carne a chamar o vício vampírico.
A viver e a morrer. Um simples ponto pode conter toda a doutrina
da eternidade, sem necessidade de profetas da luz ou da escuridão.