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Poesia

Maria Helena Ventura

20/02/2021 01:05

Procurava-lhe o perfil no gesto amplo de um espreguiçar,
à janela.

A luminosidade não se deixa colher, só recebe franjas da mesma intensidade.

Em vão tacteava os corpúsculos dispersos de um discurso
ausente.

Na linha do mar dançava, esquiva, como a luz nos telhados dos
prédios mais altos.

Migração repentina, deslizava, olhos azuis de uma brisa fugidia, tão azuis como reflexos do céu que apetece abrir todos os dias,
para lhe sondar os segredos.

Um piano ecoava de forma intermitente, devia ser um piano... à espera de interpretar o bater do coração no diálogo com o pensamento.

Os grãos de poeira ondulavam nos contornos da cintilação, atentos a folhas de pauta ainda por compor.

Já caía a noite quando as palavras desciam como gotas de chuva, aspergindo o asfalto da pele, alisando as rugas mais fundas do Tempo. E o poema brotava do lusco-fusco da respiração, como a
planta que vai germinando e um dia emerge da terra.

Sopro suave...sono apaziguador.

(In PEDRA DE SOL II)