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para quem se dissolve

Isabel Mendes Ferreira

17/02/2019 01:55

para quem se dissolve em linhas de água como se uma prosaica tragédia negra fosse meditação degradada e milagre do escândalo de uma sílaba tardia agudíssima e triunfante sobre o domínio dos cardos tudo
não passa de um vaso servil e de uma aguada de escárnio insanável. no fundo o que menos importa é o importante o mágico o tremor a definição a caducidade do ancestral o epíteto os ramos dos montes em
vendaval e a miragem. a exuberância de um galope contra o penedo da solidão em caveiras de poeira que mais tarde se faz rebanho de noites tosquiadas. crime e castigo invisível e hino de abelhas em
fúria nos
cabelos longos de uma mulher jardineira de seios e de compaixões. para quem se desiste e come o musgo seco que a grande mãe madrasta serve em taça de arame farpado o que resta é a paisagem que não
muda e de onde nunca se regressa. concebo então um filho cego e profundo com um punhal em cada mão e na chuva corroída de um verniz pródigo e
sem heroísmo entrego ao mundo a sua morte. a minha
morte. inteira e sem brilho. furtiva e de uma imobilidade tão exuberante quanto triste. é a partida a ranger e a porta a ser muro para sempre. para quem se dissolveu alheia e inbiografável._______inédito uso de
um réptil terno a ser intimidade. insurrecta ardência que nenhum sono ressuscitará. nada resiste às bocas serpentíferas. nem uma pobre flor. por mais bela que seja e respire acima do silêncio.