Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Paisagem com coqueiros

José Rodrigues Dias

24/01/2014 18:05

Esta é uma história
sobre uma fotografia a preto e branco
com quatro coqueiros altos
alinhados com o mar
e um homem de chapéu a cavalo
com dois cestos,
devem ser dois cestos,
entre a linha dos coqueiros altos
e as ondas quebradas esbranquiçadas,

e em permanente rebentação
a poesia
como em olhos pequenos
na areia
de água que se esvaie
como no enorme céu sombreado
que faz o todo do homem e do cavalo
um pequeno grão
parado…

Eu, aqui,
deste lado do mar,
longe no tempo e no espaço,
olhando a vida
em contínuo movimento
ora sereno
ora violento
como o vento,

há sempre vento
porque nunca dois valores de pressão
durante um só segundo são iguais,
só se o divino quisesse
perder tempo com tão pouca coisa
e creio que tal não fizesse…

Há sol e sombras na fotografia
e talvez eu dissesse
que naquele dia
que ali assim parou
o homem iria para um sul
e o sol para um poente,
mas pouco importa
aqui e agora
para onde aquele homem iria
e de onde viria a luz…

Importa que há vento do lado do mar
o tempo quase todo depois do tempo
sempre,
talvez quase sempre,

se se olhar bem
como os quatro coqueiros bem altos
estão todos do mesmo modo
arqueados
para o mesmo lado
no chão bem fincados
com as costas viradas para o mar
no ar subindo,
subindo, subindo sempre no ar,
cada coqueiro insistindo
e o vento também,
cada um para seu lado
como crianças num jogo esticando a corda,

olha,
como no rabo do cavalo…,
podendo no rabo não ser do vento
mesmo que parecendo
e sem pensar em livre arbítrio…

Sabes, lembrei-me
daquele filósofo Ortega y Gasset
a falar do homem
e das suas circunstâncias,
tu sabes,
conheces o homem,

o homem é o fim da história…