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ou como um perfume venenosamente original vejo-te em pupilas outras

Isabel Mendes Ferreira

07/12/2014 23:29

“Vi um ser divino face a face, e conservei a vida”. Jacob (Gen. 32, 28-31)"

ou como um perfume venenosamente original vejo-te

em pupilas outras que não as minhas enquanto vejo a 
topografia dos teus passos à porta de outros recomeços. 
passas de lado calado o nó que é enigma ao lado da 
forma de um laço que já foi nosso. vejo-te sem que 
me baste a disciplina do olhar sabendo a energia do 
esquecimento intimamente lacrado com o implacável 
legado do sonho anteriano.
esta queimadura não é de agora. tem o tempo do que 
não fomos sendo fogo negro bendito maldito divino e 
solto preso e descontente. enquanto te contentas de me 
sulcares mais longe ao longe de um perto que é nada 
dentro de uma língua hipnotizante. vi um ser divino 
vulcânico e joyceano. logo labiríntico sem profetas nem 
soluções nem tumultos fulgurantes. vi. que estavas cada 
vez mais longe como saturno ou hipérion. sentado às 
portas da cabeça. implante da não fala. vi o divino que 
morreu enquanto escrevias sobre o mar o mar morto. e 
esquecias-me.

(in "o tempo é renda", p. 239)