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O que procura o poeta

Leonora Rosado

19/09/2019 22:26

O que procura o poeta? No côncavo dos olhos, um álibi para a morte? O deslumbramento raro do amor, da paixão as labaredas ininterruptas. Do céu a cinzenta lira tangendo azuis e púrpuras tonalidades. O que procura o poeta, se não o seu âmago, o seu espelho mordido, a sua voz, sombra, escuridão. O compasso ternário, espectro de um silêncio maior, um silêncio contendo todas as palavras e linguagens. O que procura o poeta, se não a fome, a sede, a ira, o sexo, a vagina. Os testículos envoltos em febre. Um pássaro demente, o seu próprio vulto. O caos delirando sonetos, o teu olhar, a tua pele numa duna de sal e suplícios, num tosão de Sol e de lua, onde o mar sobe ao poema. O que procura o poeta, evadir-se? Um crepúsculo afável, uma orla de espinhos. O poeta é o sangue quente de uma flor, tem em si a avidez de uma rocha. Um murmúrio prestes a desabar em grito. O orvalho orgânico dos vocábulos, o húmus impetuoso de uma seara em chuva. O que procura o poeta? Um palco onde possa sair de cena. Um amplo pano negro a que chame mortalha. O poeta é a cinza e o fogo. A inquieta mansidão de um plátano. A palavra sustenida, em sílabas dedilhadas. O que procura o poeta, saciar-se, sem que tal seja possível.