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O processo de poetizar

Adília César

30/07/2018 01:43

Poetizar dói quando ela procura o sentido do tempo
nos silêncios dele. Mas os silêncios dele roem.
Começam por ser dentadinhas pequenas
mordiscadelas de rato com dentes miudinhos
como se fossem cócegas. É agradável e eficaz.

Ela gosta desse prefácio
quando o poema ainda não começou a escrever-se.
É apenas uma espécie de formigueiro
aquela breve e urgente ansiedade
de transpor para um plano concreto a abstracção das ideias.
Depois começa a doer no silêncio denso e pesado
como uma âncora de ferro que assenta no fundo.
Ela fica presa nessa profundidade emocional.
Apenas as mãos procuram os sentidos e as formas das palavras
na pele. As unhas a raspar na pele, sem pedirem licença.

O corpo do poema apresenta-se então em palco
iluminado por um foco de luz que queima
à espera de uma ovação. A personagem principal
a entidade máxima, a prima dona
é sempre a substância da ideia do poema
nunca as palavras.
As palavras não são nada. O poema é tudo
a inteligibilidade e o significado, a causa e o efeito.

As dentadas a rasgar a carne indicam o fim do processo
de construção. A dor agora é quase insuportável, à espera
da primeira prova de leitura. O poema está acabado ou não?
É um poema com sentido ou não?
Valeu a pena construir este poema ou não?
O Gato de Schrödinger está vivo ou está morto dentro da caixa?
Um poema é sempre um paradoxo governado pela improbabilidade
numa terra sem rei nem lei.
- Querida, tenho um conselho para ti
(diz ele, quebrando o silêncio).
Não recorras ao mundo quântico para poetizares.
Há formas bem mais fáceis de escrever um poema.