Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

O Lagarto

Maria Oliveira

25/03/2022 01:57

Emudeci nestes dias de clausura
Estranhei as modas e os sorrisos
Fiquei na mouca indiferença às momices dos políticos
Solicitei a renovação no mais profundo sentir do meu corpo
Voltei a dialogar com personagens que agitaram a minha aura
Empurrada pela imaginação desaguando em rios secos e marés revoltas
Deslizei por telas em branco e folhas soltas

Em sonho apresenta-se o lagarto sem entranhas de membros abertos
E contemplando a cena as bocas ociosas sobre a mesa
Adiam eternamente a degustação da criatura de sangue frio
Conservando-se o animal intacto como ornamento escondendo maldades
Vomitado pelo submundo apresentando invólucros de mensagens
Avisando que a sobrevivência é rainha num arsenal
Contagioso e sarcástico conduzido por traiçoeiras entidades
Que viajam de outros tempos e que provocam nódulos
Que impedem a mudança a transformação
Trespassam a coragem e cai por terra
A quimera eternamente adiada da iluminação

O sol abraça-me numa fugidia relação de amantes
Enquanto o instinto me ampara o passo descompassado
Por entre carreiros de ervas onde os insetos invisíveis acasalam
Colho à pressa um ramo florido de acácias
Mas será pouco para dar luz à casa e compor uma jarra improvisada
A gata siamesa dançará em círculo à sua volta
Virá curiosa cheirar o amarelo suave da planta em êxtase colorido
Como faz comigo quando se aconchega no meu abraço
Parecendo sussurrar segredos em esgares preguiçosos ao meu ouvido
Não evitará o meu bocejar de um cansaço inexplicável
Nem justificará a dor de cabeça de sucessivos dias ansiosos

Quero sair desta rotina que me esquarteja o cérebro
Comprime-o arrasando os desejos e o entusiasmo
Transformando a fala em balbuciamento
De meias frases que o coração ofegante em revolta refreia
Mas que faz o lagarto sobre a mesa?
Anuncia a sobrevivência ou a catástrofe?
Se a morte é doença e se a vida é alimento
Desconheço onde se demora o instinto do meu encantamento!