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Os corpos das mulheres

Isabel Pereira Rosa

01/07/2022 23:13

Marionetes num palco de tachos e lençóis
Eram assim os corpos das mulheres
Que ninguém explicava, ninguém sabia explicar,
Apenas que alimentavam e davam vida e prazer.
Ninguém queria escutar o que tinham para dizer.
Muitas delas viajavam na vida como se fosse morte
E viam arder os seus desejos nessa barca infernal
E sonhavam conseguir escapar aos abutres improváveis
Que as devoravam ainda em vida, sem aviso prévio.
Era profunda a raiva, espessa a impotência,
Côncavo o inconformismo, a crescer no âmago do ser.
Mas chegou um dia a primavera aos ventres das mulheres
E soltaram-se da sua boca anseios como flores livres ao vento
E nos seus dedos cansados nasceram novos pensamentos,
Finalmente donas do seu corpo, senhoras do seu querer.
Oh, mas chorai, mulheres, chorai, gritai e lutai, porque no mundo
Ainda há corpos de mulheres sobre os quais são os homens a decidir.