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Noites fechadas no meu corpo fechado

Leonora Rosado

27/05/2019 01:19

Noites fechadas no meu corpo fechado, a latitude dos orgãos imersa na mais profunda escuridão. O meu corpo ressente-se da penumbra, caminha sobre o gelo, sobre o rosto do anoitecer. Há varandas suspensas sobre o negrume afiado que nos faz estremecer. Há varandas sobre as quais nos inclinamos e podemos ver com nitidez a ausência dos traços do próprio rosto. Levamos o véu do tempo sob os braços em forma de cruz, não falamos um com o outro. O que nos dá tempo para pensar, o que nos permite elaborar o que dizer. Procuramos o pronome certo para sairmos ilesos desta emboscada amachucada que é o tempo. O tempo condensa-se e magoa-nos no rosto, atinge-nos na flor da juventude, ainda fresca. Há alturas em que me ausento, por longos períodos de tempo. Há eclipses que não escolhem a hora, que não se decifram ao espelho. De repente, não sou vista em parte alguma, em fumo algum e de súbito eis-me novamente nestes movéis, nestas paredes. Neste espaço tão violável. A imaginação é um baú preenchido e pesaroso. Dou por mim a conceber a ideia de mar ao longe, como se este invadisse as minhas veias, os meus poros, a minha carne, os meus órgãos vitais subitamente húmidos e salgados. Ninguém me defende, ninguém me impede de não me defender acima de tudo de mim. O que me faz baixar o olhar é a curva da subtileza com que se arremessam palavras. O tempo vai-se evadindo, deixando as minhas expectativas murchar na própria árvore, onde esperamos deixar sedimentar uma corda, o pescoço, afinal tão leve. Tudo se confunde e anula, a indecisão das sombras, o relógio conorário, exactamente absurdo. Impreciso se olharmos com clareza. Mal se vislumbra a noite acesa, o olhar fatigado. Não importa como abrir o corpo, uma décima da obscuridade, dizem, até levitar corpos mortos.