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Não sei que cântico trazes

Leonora Rosado

05/03/2018 02:49

Não sei que cântico trazes, raíz rumorosa de um círio?
Se a voz de um sul de pontas de luz, se o norte opalino de
uma pedra tumular. Sei que estas estrofes têm ramos e
facas, laços e gumes inconstantes, manhãs inclinadas
sobre a névoa. Não te espantes, pois, viandante, que a
canção que trago, traz peso à cornucópia do ouvido.
Árvores em súplica, ouvi e atendei às minhas preces, um
pouco mais de ramos e frutos, um pouco mais de raízes e
seiva. Um pouco menos de sombra que o Sol empalidece.
Não sei que têmporas trazes nesse manto de penumbra,
que eu caída nem astro fui. Fiquei entre lama e urze para
uma álgida despedida. Aqui, a fronte de um Inverno colhe
de uma madrugada. Quem dá a quem madruga uma flor,
um cântico de ave. A noite é um precipício voraz, rói
ossos e deleites da carne. Não sei que cantar foi esse,
minha harpa, que fuga para o infinito, que raíz de manhã
clara. Os meus pulmões são a neblina de todos os
amanheceres do mundo, a fuligem intemporal da sombra.
Ruinosos berços de fogo que apagaste nos meus lábios.
Eu nunca deles colhi o orvalho dos teus olhos, minha
aurora luminosa que se extingue.