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Não nos deixam ficar com a caneta na mão

Leonora Rosado

09/04/2018 01:08

Não nos deixam ficar com a caneta na mão, erguendo, sabe-se lá que palavra, que caligrafia meticulosa e esguia ou ilegível e artística, que alavanca nos impele mais além. Tenho tido sonhos inquietantes, rubros em que à indefinição de contornos, se juntam borboletas nocturnas e penhascos de beira de final do mundo, dilúvios e toda uma sorte de peripécias apocalípticas. Não nos permitem respirar fundo uma metáfora, o espaço e o movimento do próprio corpo, que lento, se vai esvaindo no odor descompassado das sílabas. Tenho para mim, que tudo se dissipa e desmorona num piscar de olhos, o tempo, essa agulha de precisão infalível descerá sobre nós como o abutre sobre a carcaça. Ficará o silêncio branco das pedras, o orvalho fresco ainda na fronte de um rosto que exalou o seu último suspiro. Não mais o estendal da roupa, as molas, as válvulas inquietas deste músculo em forma oval. Não mais o amanhecer azul de um azul cinzento e frio. Não mais a tua voz, as tuas mãos. Que fique esta caligrafia dispersa pelas páginas que o sangue traz de volta. Deixemos a cidade e partamos para a montanha intacta de sobressaltos e rigores climatéricos, de ar rarefeito e de difícil acesso. Imbecil, quiseste crer que eras perene. Que a mão que enrugava a flor não avançaria sobre ti. Pois bem, respira enfim, o oxigénio instável da montanha. Sente a foz do teu existir atribulado. E se a névoa se desfaz também tu por fim, um frágil barro de ossos a sujar os grãos de terra.