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Não é dali que venho

Maria Oliveira

25/03/2022 01:39

Apesar do meu corpo visível percorrer os labirintos da casa presídio não é daqui 

que venho!
É que os meus passos percorreram outros espaços
Os meus braços prolongaram-se nas asas de voos supersónicos
E atingiram outras galáxias geladas belas e mudas
Deixei de trabalhar no circo de malabarismos apertados e deslizantes
Adquiri omnipresença e tanto estou aqui como me conservo ali

Os meus pés e mãos movimentam-se em piloto automático
Tanto acelero como coloco pressão no travão
Tornei-me animadora de estendais ao vento e sopro para longe
Energias sem cor como bolas de sabão

Não me lembro de ter vindo dali!
E o corpo acompanha as transferências mentais enlaçando real e virtual
A memória instantânea traiu-me e em segundos fez-se escuridão
Talvez este sentir flutuante provenha da instabilidade da bolha protetora
A trajetória inverteu-se sem reconhecimento nem manutenção

Sinto o caos a germinar por entre as linhas geométricas do arco-íris
Suspenso no ar luminoso de inverno
Enterrado sob a neve provocadora de distâncias e demências
A pandemia vestida de transparência goza com o delírio humano
E a experiência esquizofrénica esconde-se na máscara e perde expressão
Amortalhada no cubículo agreste do cenário escancarado ao mundo prisão

Não é dali que venho!
Que poderia eu estar a fazer num espaço deserto metalizado azedo e corrosivo
Porque me conduzi ao alçapão obscuro procurando a luz
Não!
Não é dali que venho!
Encontrei-me a meio caminho da subida duma realidade homicida
Desenhada por um elevador claustrofóbico que emperrou
Na trajetória imagética de odores escatológicos
Esbracejando em direção à embarcação ondulante sem resultados perfeitos
Pois que o corpo inerte de esfalfamento nas próprias águas se afundou