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já há muito me tivera calado

Isabel Mendes Ferreira

03/09/2017 01:56

já há muito me tivera calado se algo equivalente ao silêncio me fosse lençol de chamas entre as chamas indissolúveis e impuras que desarmam e passam a linguagem de símbolos e de espinhos como antas como títulos como sinais escritos a ossos e a lanças erguidas. já antes seria a lógica uma história sem rumo nem epílogo nem escamas nem pausas felinas nem cristais como parágrafos. desde que o tempo não é soneto nem absoluto nem póstumo verbo como dístico que me calo e rendo ao oculto fragmento que é apenas chão. linguagem errática do lento encontro ao encontro do perigo. tudo o que destrói é cúmulo incandescente é abismo e rebanho de ais no meio dos cardos ao lado do rio no ventre da montanha no olho de gás das estrelas. e cai. comovidamente. rente à pele ferida de explosões. fúria de ordens várias. indigentes. majestosamente cruas. como corpos insurrectos navegantes sobre um mar de fundo raso onde mora o monstro maior da crueldade. já há muito me serias o silêncio se incerto me fosse o dia de partir. e é deste espanto cegante e soberano de ainda ser fala que falo acima das chamas para imitar a cintilação e desconstruir a muralha.
o inimigo é o tempo e o que dele não sabemos perdoar. só tentar esquecer.