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Instruções para a resolução da problemática poética anunciada

Adília César

30/07/2018 01:39

Definir a tautologia é o que me proponho.
Leio atentamente as instruções para alterar o segredo do cofre.
Coloco-me diante do cofre com a porta aberta.
Introduzo a chave na fechadura.
Desando a mão de metal como quem fecha a porta.
Em seguida, dou meia volta à chave
de modo que ela fique com o palheto virado para cima
pelo lado interior da porta na concavidade.
Introduzo a agulheta de metal com o rasgo virado talvez para baixo
pela parte superior do pistão até topar bem.
Conservo esta agulheta e faço a mudança com as iniciais que desejo.
Em seguida retiro-a e assim fica o cofre a abrir e a fechar em novo nome.

Depois, preparado que foi o início decifro as iniciais
que guardam o poema puro e virgem como um menino.
Dou-lhes rigor e precisão, aproximando-as a espaços regulares
na subtileza da formalidade técnica.
A inocência da imagética escondida
para que esculpam um sentido imaginário
liso e mortal como o tempo envidraçado.

O conceito ajustado à compressão da matéria frágil
saciado o ponto de entendimento sustentável
as palavras a florescer a crescer quase a morrer.
Uma exótica e metafórica paisagem desenhada em folha de papel resiliente.

Quando o acto de escrita se vira do avesso
decorrente de um erro procedimental
e a ortografia se veste de sombras atrasadas
o sentido do poema guarda o segredo do tempo.
Roteiro poético velho e gasto
nas mãos calosas de um poeta inexperiente
em auspiciosa insistência do vislumbre da poesia.

Talvez se imponha o recomeço da tarefa não compreendida
o conserto urgente de um falso acto linguístico
a sobrevoar a poética necessidade da escrita luminescente
e a vigiar a sedução do novo e precioso início.

Coloco-me diante do cofre com a porta aberta
para fazer a mudança das iniciais que agora desejo.
Eis o cofre a abrir e a fechar com um novo nome:
o nome renascido do meu menino poema.