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Hoje escrevo

Leonora Rosado

17/02/2019 01:02

Hoje escrevo com receio que a placenta das palavras me degole, procuro ávida a minha noite de um luar mudo, a indicação para uma bússola que me conduza ao silêncio. Astros de pele quente. Não te iludas, meu afecto, dormes só. Terei algures deixado o meu olfacto e o meu odor, em alguma longa noite, extenuada com a beleza do teu corpo assimétrico, invulgar. É possível ainda escutar a melodia deste calor medonho. Outubro, sem a sua humidade característica. Um Verão que estendia os joelhos, a voz pardacenta até ao ritmo enfadonho e lento de uma estação maligna, doentia. Nunca pude regressar incólume deste estio. Nunca mais as mãos limpas. Nunca mais o desejo consumado. Estou só na película ígnea das sílabas. Estou só no desejo intacto, um colosso voraz, impermíssivel. Incorruptível. Hoje escrevo no sangue de um seio, na habitação do ventre faminto. Sentir-te de costas, num sopro, construir lentamente a ruína da tua ausência. Amar o desejo e a pressa incorpórea de quando já não estás. Tudo nos é vedado. A chuva, a seiva espessa do desejo saciado. Tudo. Aqui nada resta. Um Sol e uma lua amarelados, ambos enfermos. E também eu, doente, maligna. Arredada. Hoje escrevo e filtro a água que tanto me fere. Os mosquitos ainda tomam conta deste enervamento, deste destratado aquecimento das sombras. É lentamente que regresso de um campo de argila seca. Não há um sinal de misericórdia. Aqui vivem-se dias e noites no prumo de uma nuvem quente e árida.