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Há tênues sinais de cristal nos espelhos

Leonora Rosado

27/06/2018 21:12

Estremeço um pouco. Viajo e por enquanto ainda não masco tabaco. Apesar das temperaturas amenas, durante o dia, à noite arrefece. E o brilho perde-se, ou então já estava perdido. Acostumei-me a ver e ler por detrás da pupila. Imagens que estavam presas, o muro a delicada curva da imaginação. É de noite que acontecem as explosões, o grito mudo, rasgado, para dentro. Encarcera-me, dilacerando-me. Creio que podias escutar-me, se me amordaçasses, gritaria com tal ímpeto que nenhuma mordaça poderia silenciar-me. Voltei ao barro íntimo da noite, da tua pele adormecida, Toda a contenção prestes a rebentar. Há muros que trazem escritas verdades inequívocas, há solavancos nas arestas do anoitecer que são impiedosos, acutilantes. Vi no espelho o meu rosto ruir, vi o branco avançar sobre os meus cabelos, senti o ângulo agudo do meu grito, estreitar-se na garganta. Houve um pássaro mudo que pousou aqui. Há laços que cortamos por serem demasiado fortes, demasiado intensos e, por conseguinte dolorosos. Vi-me oceano perdido a meia-haste, nunca consegui desatar os meus nós, nunca pude deter a imponência visceral da tempestade, cada relâmpago, uma estrofe, o início de tudo o que nos derruba.