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Isabel Mendes Ferreira

20/11/2013 17:16

gosto das vozes que não falam. ciciam. sibilam. mordem .arrastam-se na boca das desoras sempre iguais. monótonas. gosto dos traídos e dos traidores insensatamente descalços sobre o manto do desnorte. que nos são aterros. gosto das mulheres de lábios destintos e de ancas estuárias que se aprontam e se apressam a morrer entre os campos sobre as ruínas à revelia do futuro que nunca chega. gosto das falsas aparências que não iludem e nos atacam à navalhada numa diagnose sintomát...ica e reconhecível. gosto dos homens de gravata apertada orgulhosos altivos e inseguros como canivetes de alumínio quente que nada são para lá de meninos pérfidos entre as saias do poder e da ganância e gosto dos homens tímidos que nunca o são. como elas. as mulheres gladiadoras do perfume dócil e enganador. gosto desgostando. como se em arena exposta todos os volteios fossem cartas de despedida e dogmas refutáveis ao contacto com a pele das serpentes. gosto de tanta gente que não conheço conhecendo-lhes as veias os nervos as rugas o espanto o medo a mentira e o corpo galgando derrotas e conquistas em desertos como cidades e em cidades como oceanos profundos. gosto de igrejas vazias onde o frio é quente e o silêncio filigrana comovente onde todas as falas são rezas e estas janelas da solidão. gosto de um fio de luz a ser lua sobre um império de arestas que sendo impessoal é jóia intransmissível _______________joelho dobrado na campa onde me julgo outra sendo sempre a mesma. gosto de não gostar de viver e viver como se o gosto a sangue fosse faina contínua de febre e de riso. gosto das vozes que não ouço sabendo que estão sempre aqui. labialmente perfeitas.
limpas de limos. limpas de limbo. estranhezas de magníficos e magnéticos sons. inexistências. palpitação de papéis que o lixo engole vomita e retransforma. gosto de não gostar de ver. e desgosto de saber que vendo estou mais perto de morrer.