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Evasão

Maria Helena Ventura

16/04/2020 01:50

Levantamo-nos das sombras do quintal
entre o pacífico odor dos limoeiros
sonhando a evasão de borboletas acesas.
Estamos vivos, e depois?
Depois, por entre as vozes ínfimas da noite
deslizamos pela escada interior
até ao sótão poalhado
de íntimos sons e memórias.
A noite corre de manso como um ribeiro ainda jovem
e os nossos corpos auscultam o indefeso colo do silêncio
como em floresta de perfumes
libertados de baús antigos.
Olhamo-nos, acariciamos os ângulos
mais sensíveis de uma narrativa ainda sem título.
Na paz e no ruído dos enigmas
sentimos o pulsar do universo inteiro
(ou serão os nossos corações?)
a interagir com a pele, o sal, o sangue
até libertarmos o peso da matéria desastrosa.
Ainda vivos?
O rosáceo da madrugada a desfazer a escuridão
não engana:
respiramos barcos livres
na finíssima linha dos olhos aguados
e lançamo-nos ao mar: outra viagem.

(in INOMINÁVEL CORPO DESNUDADO)