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Escrever com o corpo

Dalila Moura

01/08/2018 03:06

Digo-te, “pela luz dos meus olhos”,
que me arde a boca
queimando o trigo transmutado em pão
enquanto as espigas se prendem
nos meus lábios como beijos
fermentados na saliva trocada
e as raízes se fazem carne onde o beijo morde.
Caem as palhas até aos ombros em forma de cabelos lisos a
desaguar na cratera do desejo. Deita-se o corpo entre o
feno e o arrepio. Os olhos ateiam a pele que as mãos
perseguem, tacteando os poros onde penetra o aroma de
eucalipto. O ar, entrega-se entre os dentes e a língua vai
sorvendo as gotas de prazer enquanto a manhã foge e a
tarde vem respirar o perfume dos corpos em desassossego.
Há um braço de rio –não –
há dois braços a cingir-me o corpo – como o rio cinge as
margens – e um riso parindo estrelas e cometas, na cópula
que se cumpriu na paixão!
Um pássaro esvoaça com asas de cansaço enquanto em
nós, o sangue continua a latejar.