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e um dia o mar que foi origem

Isabel Mendes Ferreira

15/02/2015 02:35

e um dia o mar que foi origem da tua mão no meu
ombro veio desfazer-se em olhos tardios ocos e
invigilantes. olhos com pestanas de sangue
cognitivamente anunciadores da paralisia do futuro. um
moinho de conflitos trágicos a ser excesso de fardo na
divina ciência dos teus dedos indicadores do fim. e um
dia a carne farisaica entrou ressurrecta no teu bolso de
alquimista do vento. símbolo de um passado morto
aos pés de uma escada descendente. que nunca subiu
os passos dos amantes . era a excelência dionísica de
um seio novo a amamentar a imortalidade. mesmo que
por um só momento de pendular ausência de ecos. foi
assim o mar que devolvemos ao fundo de todos os
fundos. de onde se volta nu e degolado. de vidro ou
vitrais sem destino outro que não seja a morte. e um
dia o mar efémero dos teus olhos fez-se eterno na
terra do nunca. onde o sagrado é origem e verbo irmão
da memória amordaçada. um fósforo. uma campânula.
uma ressonância madura de monstros e de anjos. lá
onde os pássaros explodem serpentinamente. e tu não
me vês. porque inverso às marés és da terra que se
abandona. ruinosamente. como a morte polidamente
amestrada a ser mão de luz nas minhas costas.