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É precisamente por não saber falar

Leonora Rosado

05/03/2018 02:43

É precisamente por não saber falar que escrevo,
escrevo com os nervos devassados sob a língua, a faringe,
a laringe dos dedos, de que se soltam sombras num
obscuro poço de rua em forma de lâmina. Nem um som
vagueia sob as veias, ninguém se ocupa deste silêncio de
carne suja, não há aqui ninguém que me escute. O grito,
esse inteiro acto que falha, mas a que não renuncio,
verte-o das mãos, da ponta do gume, das falanges vocais
destes dedos cegos. Toda a linguagem vocal exerce em
mim um fascínio assombroso. Um sabre erguido em cima
de uma porta que cairá sobre mim quando, por
ingenuidade a abrir. Como a criança curiosa, que
sentindo-se atraída por uma ficha eléctrica, é incapaz de
evitar o choque. Nada disto se refere a mudez, mas sim a
uma incapacidade da fala. Não consigo domar os sons
que articulo. Talvez por isso mesmo, muitas vezes sonhe
com palavras escritas, mas dentro desses sonhos, sou um
ser falante e até bastante eloquente. Quando acordo,
regresso imediatamente à escrita. E nenhum solavanco
ou desassossego me percorre.