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e agora estou aqui (imagem do mural de Isabel Victor)

Isabel Mendes Ferreira

17/10/2015 02:27

e agora estou aqui. de novo. deslumbrada também. mais em cada dia. revendo o fresco de Fra Angélico: Noli me tangere. talvez o não tenha pintado a pensar em Cristo. mas a pensar em mim. monja. dormindo numa cela ali ao lado no Convento de San Marco. onde suspendo as rosas que hoje me fazem de chão. nesta casa onde habitam palavras antigas como moedas de ouro. todo o discurso é feito de pedaços de memória. uma imensa casa deserta cujo milagre foi teu e nunca de mea anima magnificat e onde o absurdo é um móvel deslizante a cada momento em que te invoco. roubo-te as sílabas mais puras. as escritas com a mão ferida de saudade. porque a travessia é um traço nostálgico como um violoncelo esquecido debaixo da cama e tu o meu navio afogado em noites de breu e de raios estelares. e estou aqui agora esculpindo o teu rosto antiquíssimo. rosto aéreo e tão botânico na floração dos impossíveis.
a casa está sempre vazia porque tu insistes em ser nevoeiro e eu perigosa porta interior sem mácula de grades mas cheia de cartas mortas. como se o antes tivesse a substância mais inclemente do teu nome. sempre. o teu nome como chave de toda a leitura.___________________e inês morre. pelo pecado de ser-te mais dia em todos os dias em que me morreste. e dizias. não me morras por favor. sabendo já que a morte era outra rosa.