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dócil insuspeita

Isabel Mendes Ferreira

24/02/2021 13:59

dócil insuspeita doce e quase obediente às vezes a galope outras
mansarda enrolada solar
irreverente desejável branca alta língua de muitas pedras um pouco
assim é lisboa no meio da tarde com pele de mulher saias de pranto
e pescoço ágil a fingir-se virgem sendo amante frágil ardilosa e mãe
das esquinas _____________________mas quando a tarde se
levanta levanta-se-lhe o ventre e já nada é o que parece. cresce.
agiganta-se multiplica-se e cai íntegra na concha do rio como se
fosse só três vogais e três consoantes polidas aos pés da mouraria.
abre-se a porta do castelo em memória do orgulho e nas ancas
apertadas do largo do carmo escreves.me toda a saudade. até
mesmo a mais nocturna e clandestina. troco-te por um punhado de 

escamas porque me cegas muda nos muros que já foram navalhas
de mouros e hoje é uma guitarra a dizer não. largo-te ao largo para
melhor te amar.lisboa____________extensa possante e bravia.
a mesmíssima lisboa que até silencia silêncios e argumenta barcos
e adeuses.
afinal é tudo o que resta quando a palavra estala e cai a pique
sobre as fendas e o indiscriminado leitor se defende do infante
delito do esquecimento. o dia
corrosivo a ser outra vez a partida. e quem de ti se fez ausência é
só um vento áspero no chão obscuro. que não regressa. que se
afunda.