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Dobrados

Maria João Cantinho

03/05/2015 01:44

Dobrar o corpo ou a língua, tanto faz
para que a sombra nos salve
destes dias, sabes, em que nada parece viver
a não ser um certo modo de indigência
a que todos se consentem, talvez por medo
de não haver amanhã, ou uma grandeza qualquer.
As palavras trazem esse inferno, irrespirável
insano, sem lugar para um certo azul
que nos revirava os dias de esperança
e agora caminham cabisbaixos, medrosos.
Convenceram-se que o único azul é este,
o de que dispomos
um certo azul, com vagas estrelas numa bandeira
e o número do sapato não nos serve, já não o calçamos, sequer
andamos descalços, mas continuamos a olhar
para esse céu de plástico com estrelas mortiças
desenhadas só para alguns, aqueles
que por detrás delas
se escondem, com as suas siglas formidáveis
e a tresandar a poder, a feder.
Hoje é o sapato, irmão, só te serve um,
mas amanhã nem as calças te servirão
e o Inverno está à porta. E perguntas? Sonhas?
Nada. Vão deixar-te de joelhos
a sonhar com pão, com a casa que o banco te emprestou,
enquanto as estrelas pareciam reluzir.