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De repente o artista

Leocádia Regalo

13/11/2020 03:17

Tinhas nome de evangelista
parecias-te com Caravaggio
não conhecias Monet nem Gauguin
nem Frida Kahlo
nunca tinhas entrado em Orsay
no Prado nem mesmo na Pinacoteca Nacional.

Na praça de Caraguá
abrias uma caixa escura
donde explodia o óleo tropical
improvisavas os instrumentos
o cartão telefónico alastrava
a tinta sobre o oceano
esvoaçava o manto sideral
a ponta dos dedos contornava
algas medusas corais
habitavas os poentes de respiração
o branco transparecia virgem
na orgia das cachoeiras.

Quando convidavas a noite
eram incolores os teus sonhos
por vezes pintavas sombras roxas
e a púrpura os olhos do anjo
caído no atelier da vida.

Depois assinavas
marcos
como se fosse marca-de-água.