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CONSAGRAÇÃO DO CORPO FEMININO: A MÃE

Alvaro Giesta

24/06/2022 01:36

(a todas as mulheres – poema com passagens entre comas de: Sobre a vida contemplativa feminina, Papa Francisco; Cáh Morandi, poetisa e Herberto Helder, poeta)


1.
A mãe caminha firme contornando os precipícios
abertos à beira do abismo. Segura-se tantas vezes
tão só ao bordão firme da coragem. Se tropeça
nas franjas da vida segura-se sem cair à tenaz força
da vontade; porque «ela é a fonte, e a fonte é precisa».
Quando seca esta fonte, a vontade se estiola,
mas a força luminosa da mãe que reside no infinito
dos tempos, regressa e renova todo o princípio
devolvendo-lhe a força da luz. Irmana da mãe
a busca do absoluto: «de ti me fizeste e a ti regressarei».
No altar da vida, como em Cristo, a mãe é a mudança
da substância do pão e do vinho no próprio corpo.
A mãe é o odre que sustenta a sede e o prazer,
o maná, o milagre no deserto que alimenta
na dureza da longa travessia até à terra prometida.
A mãe, ungida, substancialmente pura,
é o elixir necessário à invenção da noite clara.

2.
Ergue-se devagar, como um farol na noite escura
a indicar o caminho;
é o fio exímio que traz a leitura da casa em pé.
Como mãe, é a fonte essencial; reforça a dádiva
que recebeu de Deus para manter o fogo aceso:
– o fogo da comunhão da casa. Do excesso das suas
entranhas sai, «segundo as redacções de Deus
o mais extremo exercício de beleza» – o filho.
Se o filho lhe perguntar como resiste ao tempo
e às maldições que o tempo impõe, a mãe responderá:
– que a culpa é da comunhão dos seus corpos
unidos numa só língua.


3.
As crianças, à sombra do regaço da mãe, cantam
harmonias como se fossem salmos pelos corredores
desconhecidos do tempo. Crescem com a mãe
como se ela fosse o tempo, como se ela fosse as flores
que nunca morrem, porque as flores «se deitam sobre
o chão, se afundam na terra e depois renascem.»
Para as crianças, a mãe existe sempre que
a felicidade a canta. E as crianças que crescem
«como candeias sem vento», como o sol crescente
que traz a magia na luz, iluminam a casa por dentro;
erguem-na com alegres chilreios mesmo quando
a fome levita, porque sabem que a mãe ilumina a casa
quando senta o amor à cabeceira da mesa. E as crianças
cantam harmonias como se fossem salmos
pelos corredores desconhecidos do tempo.

4.
Iluminada por dentro,
mesmo na noite em que a escuridão é mais densa,
a mãe é claramente luminosa e intransformável.
Ela ensina ao homem que nem sempre os dias vivem
das noites que se menstruam de amor. Que se deve dar
– luminosa e intransformável sempre –
ao puro acto da criação.
Mas o sangue passa pelas têmporas dos homens
em movimento constantemente acelerado,
e como sonâmbulo instrumento que se manuseia
sem pensar, assim o homem, sem olhos palpitantes,
pensa na mulher – apenas a pensa
com as ondas impulsionadoras do sexo.

5.
A mãe é intransformável porque o amor lhe dilata
em permanência o interior do peito. Dentro dele
o órgão cresce como a gazela em correria feliz
pela savana, para celebrar a sua entrega ao homem
no puro acto do amor; o amor excelso
que ultrapassa o tempo e se abriga no sonho:
– o da eternidade inteira que abre memórias na líquida
atmosfera, da perene exaltação do corpo feminino.
Para as crianças a mulher existe sempre
que a felicidade a canta; para os homens sonâmbulos,
a mulher existe apenas para os servir
entre o intervalo da vida e da morte.
Porque os homens sonâmbulos «dormem loucamente
na imensidão dos dias» e adormecidos, seguem cegos
na cegueira de não quererem ver, porque sabem que
não seca a fonte, da silenciosa pureza do ventre.