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Conclusão (poética?)

Adília César

30/07/2018 01:33

A poesia morreu subitamente no pensamento do poeta
condenado a amassar-lhe o corpo e nos olhos que a comem a chorar.

Vejam os poemas de pedra, indigestos
no preciso momento em que as palavras mastigadas
se tornam herméticas e inúteis, aos gritos
despejadas e reverberadas nas bocas que se creem
deuses nas alturas, sem paz nesta terra de poetas.

As palavras transformam-se, dispostas nas linhas enroladas
de um processo mental desorganizado, apenas ecos
transumâncias espaciais na interioridade dos sujeitos intervenientes.
Sombras do desgosto ingénuo e salitroso
longe do mar sem fim e sem destino.
Sons inconcebíveis e desconexos da agonia a dobrar o cabo do medo
a esboroar o vento enraivecido.
Carne virgem de um poema por acabar.

Na morte súbita da poesia, inventariaram-se as palavras
afectadas pelas emoções vazantes, aquelas palavras que ainda respiram
rasgadas na sua glória, que recusam a passagem
pelo crivo decisivo do esquecimento, do anonimato.
Chagas de discursos não poéticos.
Depósitos de vaidades nos corais quebradiços.
Palavras que demoram nos arabescos dos dedos.

O silêncio não se incluiu na lista.
Sentiu a vergonha de ser réstia, sozinho e inconsolável
a perder-se nos confins do mundo e nas mãos do poeta.
O peso da cobardia a amachucar a fina folha de papel.
A enormidade da perda, a imensidão do mar conspurcado
pelo não-ser, o não-saber, o não-querer
a dádiva das palavras sobreviventes, dimensionadas talvez
num possível poema sobre a morte súbita ou outra morte qualquer.
A morte é sempre morta e perfeita ainda que a poesia não seja coisa viva.

No inventário, o silêncio redigiu a seguinte declaração
que dedicou à poesia, em modo de epitáfio:
Da próxima vez que morreres, suicido-me contigo.
Talvez assim tu percebas que gritei
de todas as vezes que morreste.