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Como um cadáver que pensa, são assim os olhos

Alvaro Giesta

17/08/2021 02:19

I
Como um cadáver que pensa,
são assim os olhos com que vejo o mundo.
Às vezes, chego até a pensar
que sou o cadáver de um cadáver que já o é,
― embora ainda em vida ―
que pensa o absurdo “querer ser nada, e nada ser”.

Com outros olhos humanos diferentes dos meus
olho para os precipícios à minha volta,
(os precipícios que assombram o mundo).
E penso das larvas que me passeiam o corpo
quando eu cadáver já for ―
se elas me devorarão tão completamente
como agora me devoram já, escarafunchando
até ao tutano aquilo que eu já era, antes de o ser.

II
Estou habituado a deixar tudo para trás ―
tudo menos o meu pensamento,
porque esse é o único capaz
de poder atestar em todo o tempo
e em qualquer altura do mesmo,
que eu existo mesmo sem pensar.

E que feliz me sinto ao deduzir desse pensamento
que sou algo mais que o nada!

O nada, das máscaras de Pessoa,
que enredado de armadilhas me permitem pensar,
― ao contrário do Poeta, que se dividia em outros
nos seus muitos estados de viuvez de si mesmo ―
que ainda sou, mesmo sendo apenas um.