Para visualizar este site, favor habilitar o JavaScript no seu navegador.

Chão e mar

Dalila Moura

09/08/2019 01:24

Desta feita, a chuva caía engalanada,
espreguiçando-se entre os búzios e os caracóis do mar.
As gotas pintadas de madressilva nas pérolas escondidas
em ostras imersas na lama.
A leveza das águas a transbordar chão e mar
afagando corpos nus à desgarrada,
num som de flauta que o vento percorria.
Apresentou-se nas veias da cidade e nos músculos do mar,
deslizando sobre o barro
do caminho que ligava a montanha à espuma da maré.
Vinha cansada do esmalte das nuvens
e num sôfrego se acalmou nas costas do mar.
Ainda descansou na curva das horas – enregelada –
Cantou sobre as redes e as velas
no branco do vento que coloria o barco.
Deixou um espaço breve
por arrumar na seiva dos limos e no traçado das algas.
Depois deitou-se, em soluços paulatinos,
como quem chora devagarinho
Um coração molhado nos olhos do tempo.
Ah! Os olhos do tempo…
onde a chuva cai e a lágrima desliza acendendo o brilho
que o peito guardou na baía onde o sol nos abraça!
E os pássaros molhados inventam outro silêncio
no poema que oscila dentro das asas!