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Cartas

Maria Helena Ventura

04/05/2021 01:23

Há cartas
que não querem envelhecer
preferem deixar
o travo amargo
de incunábulos de afecto
em incisões negras
na pele
e ainda se atrevem
a cintiliar
vestidas de candeeiro
para a noite
dos dias arquivados...
Não sabem do meu labor
para arrancar raízes
de sonolência
nos códices rasurados
a cabeça encostada
ao rosto que tanto afago
um peito colado ao outro
como gotas de água
na macieza da lua.

Escuta o que vou dizer:
quando voltares
as pétalas do meu corpo
não serão mais
do que um tapete
deitado no bailado
do crepúsculo.
Na alma levo a despedida
já inaugurei a caminhada
da ausência
há tanto tempo
que não preciso
dos teus braços
como remos
para navegar o silêncio.


(In PEDRA DE SOL II)